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Filhos e cuidados com a casa freiam entrada da mulher no mercado de trabalho PDF Imprimir E-mail
Escrito por Administrator   
Dom, 25 de Agosto de 2013 20:20

Falta tempo para o trabalho. Cuidado com os filhos, sobrecarga de afazeres em casa, culpa, horário difícil, machismo, tudo isso junto está freando a entrada da mulher no mercado de trabalho, depois do explosivo avanço nas décadas de 1970 e 1980.

O nível de ocupação, que é a parcela de mulheres trabalhando no total da população feminina de 10 anos ou mais, mantém-se pouco acima de 40% há mais de 20 anos. Em 1992, era de 43,3%, em 2011, estava em 45,5%. Fenômeno que a economista Hildete Pereira de Melo, da UFF e pesquisadora das questões de gênero, chama de teto de vidro. Essa é a primeira de uma série de reportagens sobre o tempo e seus mais diversos aspectos da vida, que prossegue até quarta-feira.

— Há um teto de vidro, uma barreira a essa entrada no mercado.

Segundo números da pesquisadora, a parcela da mão de obra feminina na força de trabalho total era de 43,9% em 2009 e caiu para 43,3% em 2011. A falta de creche é um dos obstáculos para as mães terem direito ao trabalho remunerado. Quando consegue creche, o trabalho remunerado faz parte da vida de 71% dessas mulheres, quando não têm onde deixar as crianças, a taxa cai para 43,4%.

— Trabalhava 12 horas por dia quando engravidei. Dez dias depois do parto, minha firma faliu, passei as madrugadas preparando ação contra a empresa. Logo depois veio o segundo filho. Como arranjar tempo para ficar com os filhos, trabalhando 12 horas por dia? Chego a sonhar que estou numa audiência — conta a advogada Kívia Nunes, resumindo o dilema de conciliar o desejo e a necessidade de cuidar dos filhos com os planos de trabalhar.

Salário é 25% menor

A economista Lena Lavinas, professora do Instituto de Economia da UFRJ, joga a remuneração do trabalho na discussão. Como o salário feminino é 25% menor que o do homem, na hora da escolha familiar de quem tem que parar para cuidar das crianças, esse fator pesa:

— Essa disparidade acaba reforçando o papel doméstico da mulher. Tinha que ter licença paternidade e maternidade. O pai fica sete dias em casa, e quando o trabalho com o bebê começa de verdade, ele volta ao trabalho. Diminuiu a participação dos homens no mercado de trabalho, mas nem por isso aumentou a participação deles nos afazeres domésticos.

Menos aposentadas

Em 2011, o homem gastava dez horas e oito minutos de sua semana com afazeres domésticos, enquanto as mulheres destinavam 22 horas e 13 minutos. Dez anos antes, o tempo dedicado pelos homens era oito minutos menor.

Para a economista Guiomar Aquilini, analista da Fundação Seade, o excesso de trabalhos ditos femininos traz consequência para toda a vida profissional da mulher.

— Na aposentadoria isso fica claro. Enquanto 42,1% dos homens estão aposentados entre 50 e 75 anos, entre as mulheres essa parcela cai para 29,4%. Reflexo do trabalho não remunerado, dentro de casa.

A renda baixa desestimula ainda mais a entrada no mercado. Entre as 25% mais pobres da região, a taxa de atividade (mulheres que trabalham e que procuram emprego na população com 10 anos ou mais) caiu de 45,7% para 43,9% em dez anos. Entre as mulheres com mais renda subiu de 62,4% para 65,1%.

— Quando a renda é maior, é possível terceirizar o serviço.

O marido da psicóloga Yramaia Valini Rinaldi Cruz, de 42 anos, recebeu uma proposta para trabalhar em Salvador quando o segundo filho do casal tinha 1 ano e o primeiro, 2 anos. Como o ganho de Yramaia era pequeno, o casal se mudou e a psicóloga parou de trabalhar.

— Sempre quis ter família grande, mas depois que abandonei o emprego chorava de vez em quando. Não gostava de me sentir como dona de casa.

Três anos depois, a família retornou a São Paulo e já estava maior: nascera a terceira criança, uma menina, hoje com 12 anos. Novamente, optou por deixar as crianças sob os cuidados da avó. Mas os meninos tinham crescido. O primeiro tinha 6 anos, o segundo, 4. Ou seja, davam muito mais trabalho do que quando eram bebês. E ainda tinha a menina, de apenas 1 ano, que exigia atenção constante:

— Foi horrível. Aí vi que não valia a pena trabalhar. Financeiramente, não dependíamos do que eu ganhava e percebi que me satisfazia mais cuidando das crianças. Desta vez, ficar em casa foi opção — afirma, que com as crianças maiores resolveu tornar o hobby de fotografar em profissão e montou um estúdio em casa.

Também foi por opção que Rachelle Cordeiro deixou o trabalho numa revendedora de carros ao engravidar de Matheus, hoje com 1 ano.

— Ele nunca teve um resfriado. Não quis pôr em creche, é muita criança junto. O pediatra diz que o melhor é a mãe ficar com o filho pelo menos até os 7 anos. Pretendo cuidar somente dele até os 5 anos e acho que consigo voltar ao mercado.

Fonte: www.oglobo.com.br

 

 

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